23 janeiro 2012

Será que Henri Cartier-Bresson teria usado um celular para fotografar?

O crescente uso das câmeras dos celulares e a diminuição do uso das câmeras compactas se tornaram inevitáveis, além de nos transformar cada vez mais em fotógrafos de rua. Sendo assim, se existisse a possibilidade, teria Cartier-Bresson trocado sua câmera Leica por um smartphone?

Fotógrafo Henri Cartier-Bresson focando suas lentes em 1957. Fotografia: Jane Bown

A câmera compacta doméstica está chegando ao “fim da linha”. Com baixo custo, pequenas e algumas até muito elegantes, essas câmeras percorreram um longo caminho desde George Eastman – fundador da Kodak – tornando a fotografia cada vez mais acessível devido à disponibilização no mercado dos rolos de filme e dos modelos padrão Kodak Box (que no Brasil chamamos de xeretas).

Se a acessibilidade é a questão, certamente é por isso que as câmeras compactas estão perdendo espaço para os smartphones. Por que ter um gadget a mais quando seu celular pode realizar um bom trabalho fotográfico? A câmera de 8MP presente no iPhone 4S pode não coincidir com a contagem de pixels de uma Nikon Coolpix, dizem, mas a versão melhorada da sua lente torna o smartphone capaz de ter desempenho considerável na produção de imagens para compartilhamento online.

Câmeras ultracompactas tradicionalmente não são projetadas para capturar imagens da mais alta qualidade. Eu tinha uma Kodak Disc Camera, quando criança, e uma pilha de fotografias de férias borradas que provam que ela foi possivelmente um dos piores exemplos deste tipo de câmera. A qualidade tem aumentado enormemente desde então, mas características como o point-and-shoot, foco automático e outras funcionalidades básicas das câmeras compactas também estão disponíveis hoje em dia em todos os smartphones. Enquanto recursos automáticos para todas as ocasiões se tornaram, ao longo dos anos, ferramentas padrão para diferentes tipos de ocasião (por exemplo, cenas noturnas, esportes, paisagem, retratos), o controle manual tornou-se algo não esperado para um modelo de baixo custo, assim como alta qualidade de suas lentes. Para ter uma qualidade maior, os amadores mais interessados optaram por escolher câmeras digitais modelo bridge, SLR Digital ou qualquer outra câmera com maior qualidade. Alguns deles iniciaram na fotografia ainda com câmeras de filme.

Carregando uma câmera constantemente nas mãos para capturar o instante decisivo, agora somos todos Cartier-Bressons – mas teria Henri Cartier-Bresson usado uma câmera de telefone celular? Ele sempre usou a famosa Leica porque era pequena e o mais importante, silenciosa. Ele gostava de ser o mais discreto possível enquanto fotografava cenas de rua. Será que o som artificial de uma câmera mecânica, utilizado hoje pelos smartphones, irritaria Cartier-Bresson? Ou talvez estivéssemos todos tão acostumados a fotografar tudo ao nosso redor que isso não seria um problema.

Cartier-Bresson usava uma lente ágil, 50mm, que lhe permitia fotografar rapidamente em diferentes condições de iluminação. Ele odiava a pós-produção: "Nosso trabalho consiste em observar a realidade com a ajuda da nossa câmera... de fixar a realidade em um momento e não manipulá-lo, nem durante o ato fotográfico, nem na câmara escura, mais tarde”, disse ele. "Esse tipo de manipulação sempre é percebido por qualquer pessoa com um “olho bom”. Sendo assim, nada de Hipstamatic (ou Instagr.am) para ele.

Mas, se a conveniência prevalece sobre a qualidade, e se "fixar a realidade em um momento" é a coisa mais importante, talvez Cartier-Bresson tivesse usado o smartphone (e outras ferramentas da nossa era digital). Como sabemos, despediu-se da câmera em 1975 e perdeu o interesse pela fotografia, preferindo desenhar. "Eu nunca penso sobre a fotografia", disse ele em 2003. Isso seria difícil de se fazer hoje, em um mundo onde se algo não foi fotografado, não aconteceu.

Texto original: Theresa Malone para o The Guardian
Fonte: http://www.guardian.co.uk/artanddesign/2012/jan/10/henri-cartier-bresson-cameraphone
Tradução livre: Karla Vidal
Revisão: Augusto Noronha