15 março 2015

Fotografia e memória: negativos, digitalizações e afeto

Imagens digitalizadas a partir de negativos de filme preto e branco datados de 2004. Fotos: +Augusto Noronha e +Karla Vidal 

Andei revirando arquivos e estimulando sentidos nos últimos dias. Em dezembro passado decidi me dar de presente um equipamento que já vinha namorando há anos, mas que acabava nunca comprando por questões de prioridade. Meus investimentos em equipamentos fotográficos costumam ser muito bem pensados e planejados porque a grana é curta. Para tornar a aquisição possível eu conto exclusivamente com a ajuda de familiares que moram fora do país e que podem me ajudar no envio de acessórios e lentes. Foi o que aconteceu com o personagem principal desta postagem, o Rollei DF-S 100 SE Scanner de diapositives et négatifs que pude comprar direto na França graças a minha querida irmã +anne sophie lahalle (o que seria de mim sem vocês aí?) que veio ao Brasil e trouxe a encomenda pra mim.

Foto: 2015 CC +Karla Vidal 

Comprei o scanner logo após o lançamento do meu livro Anônimos, Famosos e Viajantes onde estão publicadas fotografias que produzi em processo analógico. O processo de digitalização das cópias já reveladas foi bem árduo e decidi investir no equipamento para caso haja a necessidade de novas edições. Isso porque, além das imagens que compuseram o livro, ainda tenho dezenas de fotogramas inéditos que gostaria muito de publicar. Se você não conhece o livro clica aqui que o download é gratuito.

A compra foi super curiosa. Pesquisei muito sobre os equipamentos para chegar a algo que atendesse minha necessidade numa faixa de preço humano. O bom é que na França esses equipamentos possuem preço bem justo. Depois de muito pesquisar cheguei a dois modelos, um da marca Veho e um da Rollei. Além da reputação da marca alemã Rollei, o que motivou também a decisão final foi a possibilidade de usar um cupom de desconto de 10 euros e mais um desconto de Natal no valor de 5 euros. Com todos esses benefícios o produto saia por 54 euros (184 reais na época) com entrega em 24h. Não tinha como não comprar.

Fotos: 2015 CC +Karla Vidal 

E foi um dos melhores investimentos que fiz na vida. Para quem deseja qualidade extra-mega profissional existem melhores opções no mercado, incluindo edições da própria marca Rollei, mas para as minhas necessidades a compra foi fantástica. O equipamento é simples, pequeno e completo, do jeitinho que eu gosto. Possui um corpo de pouco mais de 15 centímetros de altura fácil de posicionar em qualquer lugar e três pranchas para encaixe dos filmes, sendo duas para slides e diapositivos e uma para negativos, tudo bem projetado com espaços específicos para acondicionar corretamente e não danificar os filmes. O processo de digitalização é muito simples, basta apertar alguns botões e tudo é salvo em um cartão de memória do tipo SD.

Foto: 2015 CC +Karla Vidal 
Além de garantir a digitalização dos negativos em bons arquivos com 1.800 dpi e dimensões em pixels de 2520 x 1680, o scanner desempenhou outro importante papel, o estímulo da memória. Comecei a fotografar na adolescência e tenho negativos desde então. O scanner possui um display onde se pode ver os fotogramas um a um. A cada fotograma que via sentia uma emoção diferente. Comecei a lembrar dos momentos vividos, das situações que contextualizavam cada imagem e até de cenas que nem lembrava que havia registrado. Algumas delas que não quis mostrar na época porque quando era aprendiz ainda tinha o pensamento muito condicionado e acreditava que tudo que produzia era ruim. Ainda bem que a gente amadurece.

Fiquei realmente emocionada e muito satisfeita de poder desempacotar os meus negativos e viver essa experiência que para mim é nova. Não a experiência de recordar através das imagens, mas sim a experiência de rever as minhas imagens e perceber que o material que produzi e que antes eu achava que não tinha tanto valor, está completamente carregado de outras memórias que não são só minhas, são das pessoas que registrei, dos locais que fotografei e do contexto social que ficou imortalizado em cada fotograma. Se essa não for a melhor contribuição da fotografia na vida das pessoas, não sei mais qual possa ser.

Cena fotografada no Parque 13 de maio, no Recife, em 2002. Foto: +Karla Vidal 

Dos meus negativos algumas novas séries surgirão. Prometo publicá-las no http://karlavidal.com.br/. As imagens do início dessa postagem foram feitas em filme Kodak Tri-X, reveladas em laboratório e digitalizadas no scanner DF-S 100 da marca Rollei. Foram feitas em 2004, há mais de 10 anos, quando eu e +Augusto Noronha começamos a namorar. Os clicks onde apareço são dele e aquele em que ele aparece é meu.

E vocês, que afetos carregam os seus filmes?